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Minha Vida de Pintor / LXXIII

É melhor pintar. Tirar das tintas as cores e dar-lhes vida, e assim estar com elas, longe dos cinzas e negros da Lua. Isso. Fico pensando se o meme/gene, o artens da arte, tão visível na pintura, teria uma natureza avita? Creio que não, pois nada salta quando se está armadilhado - para viver, procriar, morrer. Assim, nada que não é artístico me pertence. A arte, vejo-a no começo, durante e no fim dos tempos, quando somente ela nos poderá salvar. Não gostaria de crer que quanto mais absurdo mais crença. Um besouro. Deus é um besouro. Pra que? Se cresse, descansaria como um justo, mas teria vivido na superstição. Não crendo, teria o meu pincel ereto (pinto com meu pinto), pronto e descansado. Se não, seria só artista. Contudo, nenhum artista é só artista. Há de ser filósofo, jardineiro, voluntário, filântropo e fundador. Há de ter ciência, intuição científica, magistério, a beleza na ponta dos dedos para fazer a vida mais agradável e feliz para todos. Há de ter a arte, plasmada desde sempre, dentro e fora da vida. Assim, armadilhado nesta inteligenciazinha, como não crer em sua natureza avita? ... se a sinto nos olhos (este príncipe dos órgãos, iludível como um rei), se a percebo silenciosa e infiltrante (ainda que barulhenta, no céu), e atuo com ela, deixando-me guiar, pari passu por ela, inventor e criador, todo ganho de graça, por sua própria beleza inata e, vá lá, sem nenhum mistério? Primeiro o belo, depois os olhos -, depois dos olhos então a beleza. Pois nem tudo eram dívidas da natureza. Havia os acertos; afinal, que  mundo melhor meus olhos podiam criar, senão este que o aprisionava num jogo de gato e rato, onde eu, humano indigno, tinha que sobreviver a qualquer custo para procriar a lamber a cria. Que belas flores, que frescas cascatas, que campos!Tudo falsos problemas. A arte era sempre a despeito, pouco sendo por que fosse, e pintar, isto sim, era como agitar problemas, pois como negar o mistério sem nenhum mistério? Dura tarefa. Um livro sem fim. Enfim. Um bom conselho seria reinventar a vida, ou melhor, reinventar a arte, tarefa difícil, diga-se, pois tudo deve ser fácil e sem grandes problemas quando a arte guia o engenho inspirado. Inspiração. Um dia bonito, saúde e amigos. Um pintor é como um abacate (!?), nasce feito e com caroço. Mas, exponencialmente, evolui rápido, mais até que um pensamento, pois a linha acertada chega antes e diz mais que os livros. Ou seja, seriam coisas para pintar, não para pensar. Ainda que eu, o que mais sofre, pense. Não, não sou o que mais sofre. Tenho a arte, pai e mãe de todas as coisas, vivas e avitas, e tolamente formulo: Quem nasceu primeiro? O pintor ou a arte? Creio na arte, respondo o ovo, pois sei que assim minha esperada madrinha, a natureza,  atua. Sorte. Chega-se à ela ou ela vem, pouco importa, como um estalo e ela está ali, em seu set inspirador, onde nada é acaso (se acaso você se achegasse) - e semelhante a quando procuramos por um livro (que nem sabemos bem) e ele nos pula às mãos. Assim, a pintura deve vir às mãos, para dar graças aos olhos, requentar os velhos e despertar os envelhecidos, dando-nos o meigo beijo nos olhos, a juvência, enfim, o diamante, quando após a arte a vida surge clara e o pincel penetra a tela duro como um muiraquitã de jade verde-amazônico. Interessante: Eu Promeu, o que Amazoneu é o melhor dos nossos livros amazônicos, já que A Selva é de Ferreira de Castro, português. Pois bem, dorme impublicado, embora édito, há mais de 20 anos, engavetado. Arre! Tudo porque quando jovem estava sempre a enfiar os pés pelas mãos. Já lhes disse de minha trombada com o jovem Rocco. Agora vos conto do Álvaro Pacheco, o meu editor de China, o Pragmatismo Possível. Quinze dias após a publicação (com sucesso) o abordei num lançamento de livro e entreguei-lhe os originais de Outra Noite na Taberna, o que, hoje vejo, muito o ofendeu, pois ele o recusou dizendo que ali não era o lugar apropriado. No que tinha (e não tinha) razão. Doutra feita, mal acabara de publicar Marta, Júpiter e Eu, fui a São Paulo entregar à minha editora Zezé Silveira, da Marco Zero, dois grossos originais recém escritos: Eu Promeu, o que Amazoneu e Uma Noite com Fidel. Enfim, devo ser um escritor apressado e que sempre comeu cru.
Homenagem ao Rei Poeta Nezahualcóyotl / Centro Cultural Universidade de Chapingo, México / 2008
Pasmo. Hoje, num e-mail bem pessoal, Alberto Dines disse que o lendário arquivo do Jornal do Brasil "desapareceu há muito tempo”. Nossa, que grande tema para uma pauta: O que houve com o arquivo do JB? Soubesse eu que iria sumir e teria tirado de lá os artigos sobre música americana do Luiz Orlando Carneiro, os bilhetes da Condessa Pereira Carneiro, os originais do Lan, os Cadernos de Jornalismo do Armando Stronzemberg, os textos do Paulo Afonso Grisolli, de Bárbara Heliodora, Amílcar de Castro e Reynaldo Jardim... e aqui mil dias enumerariam os jornalistas mais intelectuais, mais artistas, as fotos do Evandro Carneiro, as reportagens, entrevistas, gravações de nem sei quantas décadas de vida cultural política e social do Brasil, do mundo. Onde estará minha entrevista com Alceu de Amoroso Lima? Meus textos sobre Ionesco, Grotowski, Vitor Garcia, Witold Gombrowicz, Slovoban Mroizek? Dines, diga-me onde estão os textos teus, os meus? Os textos do Yan Michalvski. Soubesse tal fatalidade e teria roubado o arquivo do JB. Oportunidades é que não faltaram. Mas como trair Raul Riff, o meu editor ? Como trair o Carlos Lemos, meu editor? Como trair a Condessa, minha madrinha? Tempos, tempos idos e nada heróicos. Eu vestia o meu terninho barato e chamava um táxi na minha casa da Rua Vitor Maúrtua 11, na Fonte da Saudade, na Lagoa. Soltava na porta do Jornal do Brasil. Sempre via o Dines, o Nascimento Brito e o Carlos Drummond de Andrade na fila do elevador. Coincidência. Pudera. Ainda que muito jovem, eu era um jornalista experimentado, e tanto que nunca me senti capaz (ou com vontade) de ser jornalista. Além do texto, me interessava o jornal em si, o poder de poder ser dono do jornal. O poder, eu nele e o mundo seria bem melhor, e assim subia no elevador com a minha madrinha a Condessa e ficava pensando que talvez ela pudesse me nomear seu herdeiro, só no jornal, bastava. Olhava para ela, mas, não creio que acreditasse no que eu estivesse pensando. De modo que sempre sorríamos um para o outro. Um dia uma tragédia pessoal se abateu sobre mim e o Nascimento Brito entrou na redação e foi me levar seus pêsames. Jamais esquecerei tal gentileza. Em verdade, eu só tinha um defeito: havia combatido a ditadura, talvez ainda a combatesse. Bem, o JB naquela época era infiltrado de militantes clandestinos. Tinha de tudo. De modo que como eles, eu também estava lá infiltrado, e nem eles sabiam de mim e nem eu deles (em termos). Riff, todos sabiam, era do Partido Comunista. Mas, era como se não soubéssemos, e nem ele sabia de nós; ou seja, éramos todos traidores, exceto o Riff. Dei azar. Ele tinha uma jovem atriz para o meu cargo, soube depois, pois logo na primeira e única semana em que trabalhei no Departamento de Pesquisa do JB esbarrei com o Fernando Gabeira e ato contínuo fui apadrinhado pelo Riff. A Condessa e o Mário Alencar me deram razão (hoje, porém, não estou convencido que a tivesse, já que o jornalismo, para mim, foi estrela derradeira, candente, breve e fugidia), pois implicavam, como eu, com aquela importação replicada do lead e do sub-lead norte-americanos, engessando num mesmo mesmismo jovens autores como eu, quando todos sabíamos perfeitamente que a notícia de um peido de elefante no Parque das Flores de Bancoc podia ser muito mais importante numa matéria jornalística do que o homem que o conduzia, morto envenenado pelos gases. Se o peido, por exemplo, fosse no Rockfeller Center, que importava que o elefante tivesse nascido na África ou na Asia? Coisas do JB, a serem apuradas. Sim. Serei sempre um jornalista. Aqui se bajula sempre, diferente da pintura, que só cria bons pintores irascíveis. Aqui se gosta mesmo dos quadros, lá ninguém vê nada. Minto. Só uns poucos. Às vezes pensam que sou de Vênus, tal me a excentricidade, mas já não me vem como um poderoso senhor que pudesse resolver a vida deles, como um jornalista o faria. Explico. Outro dia, aqui no meu estúdio de globalizados vidros coloridos, agora lindamente enriquecidos pelos novos e inusitados reflexos dos vidros da minha estante de livros, que só agora trouxe pra mais perto de mim, conversando com Bárbara e Sérgio, sobre o sabido valor político dos livros, e em especial da literatura, sublinhando a sua matéria poderosíssima, trouxe à conversa a arcaica antiguidade do olho, e a conseqüente infância da palavra, falada e escrita. Disse-lhes que no olho gostava de sua arte inicial e já madura, arcaica, e de sua indefinição com a arte. Sem rodeios, um bom neoevolucionista poderia perfeitamente dizer ter sido o olho a fazer a arte, embora me parece mais verdadeira a recíproca. Rejeito, portanto, Horus, e amo o olho. Deixei Baal, Zeus, agora Deus. ... fico pensando, então, se não seria o caso de convidá-los para formar conosco uma Arcádia de Pintores (e desenhistas) e Escritores. Uma Arcadia em Tiradentes. Precisamos de um jornal. Vários jornais. Já tivemos, O Patriota, O Popular, A Folha de Tiradentes, O Progresso. Hoje não temos nenhum.
O painel-mural em homenagem ao Rei Poeta Nezahualcóyotl, à noite
É melhor pintar. Tudo se pode colorir com uma boa linha preta. Minha parva sed bona memória, a mais recôndita e remota, remete-me a uma figueira frondosa, ao lado de uma coluna dórica de um caramanchão de glicínias, que desenhei a crayon na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, bem próximo ao internato do Colégio Baptista, de onde eu fugia para bem próximo ao Estádio do Maracanã -, onde nasci, mais exatamente em frente ao antigo portão (de ferro) do Colégio Militar. Foi ali. Acho que tinha treze anos. Papai achou alguma excepcionalidade em mim (rebelde, mau aluno, quem sabe um artista?) e, como seu amigo o mago Elói Dutra havia dito que eu seria um pintor famoso, levou-me num radiante domingo a matricular-me na Colméia dos Pintores, uma reunião muito pacífica de pintores amadores, onde, me lembro, fui muito bem recebido. Que esplêndido mundo este dos pintores amadores. Muito melhor que o dos profissionais, onde só os que nascem feitos conseguem vencer as infindáveis dificuldades de uma vida de pintor, obstaculada por críticos inexistentes e curadores por demais existentes. Lembro-me: ..era um croquis imperfeitíssimo de um grosso tronco entrelaçado de glicínias e mesmo assim me elogiaram a percepção, a proporção, a leveza do risco, a delicadeza da cópia e creio que o "motivo nenhum”, o indizível que a arte mostra, e que todos vêem e ninguém explica. Exceto eu, que tudo explico: quanta imperfeição. Quantos erros, quanta rudeza, quanto desencanto. Como a beleza, a mãe de todas as artes, madrinha de todas as graças, poderia se instalar naquele mundo ainda padecente sob Pontius Pilatos? E podia lá eu ser um grande pintor de anjos caídos e ademais pobre? De que vale um grande pintor pobre? Assim, como tudo nesta minha vida de pintor (programado?) a Colméia durou pouco. Pouquíssimo. Não mais que um domingo. Gostei de ser amado mas, definitivamente, não sabia copiar. Copiava mal, não ousavam dizer, procurando ser elegante e grato com papai, mas eu não era da cópia pela cópia, pois temia me viciar nos macetes e, confesso, não vir a ser verdadeiramente um grande pintor. O problema, contudo, bem maior, foi que esqueci por vinte anos que era um pintor. Pensei ser rico, ser jornalista, escritor e só quando não consegui ser nada, e sendo tudo isto muito bem, é que me tornei pintor. Assim como para o Carnaval, eu me guardei para quando a pintura chegasse. Um belo dia. Uma folha de papel vegetal e escrevi uns riscos com pastel (a cor-volúpia) e alinhei uns bicos-de-pena (que precisão) com umas manchas de nanquim (a sorte estava a meu lado) e assim comecei a pintar, ou melhor, a ser pintor. Um dia, um pintor. Era, portanto, um caso de pintor excêntrico, esquecido de sua única aula de pintura, crente que era autodidata. De modo que fiz 1.500 auto-retratos, em 1 mês.
Lembro-me, se é que isto é memória, e não sonho... que no Colégio Metropolitano, no Méier, um subúrbio do Rio, eu era um mau e indisciplinado aluno que fizera um cartaz desenhado e colorido de um semáforo e que fora muito elogiado pelos professores. Foram meus primeiros elogios. Qual!? Queriam era me dominar... Mais tarde, no Colégio Baptista, da Tijuca, também no Rio, onde fui internado, como solução final, fiquei apaixonado, transtornado com os desenhos de dois de meus colegas. Um fazia quadrinhos, com grande habilidade e beleza. Seus aviões de guerra eram perfeitos e inimitáveis. Tinham marca. O outro, Rodolfo Conde, fazia retratos de grande realismo técnico. Era o que me parecia -, era tudo que eu queria ser, eu, que mal desenhava e trocava o verde pelo azul, o roxo pelo lilás e o creme pelo marfim. Ainda troco. Contudo, havia o Elói Dutra e o vaticínio de alguém que chegou a ser vice-governador do Rio de Janeiro, se não me engano. Esotérico, famoso nos círculos teosóficos do Rio de Janeiro dos anos 50/60, Elói, disse papai, fez questão de sublinhar o adjetivo "grande” quando previu que eu seria pintor (hoje sei que qualquer pintor é grande). Teria preferido ser jardineiro em La Zarzuela, hoje sei. Mas, eu tinha dez anos e já um vaticínio me alegrando as costas. Ia dar certo. Grande vaticínio. O que de melhor poderia eu querer na vida? Ora, tinha mesmo que esquecer aquilo. Contudo, pintor mesmo, eu só vim a ser já no alvor da maturidade. Quase me tornei antes, se é que não, depois de assistir Gerard Phillipe vivendo Amadeo Modigliani, como já disse, mas, a subsistência sempre me barrou, o que sempre me irritou. Tinha que lutar contra o dinheiro e ao mesmo tempo tinha que ganhá-lo. Que mundo! O que tinha eu a ver com uma natureza que me porogramara para sobrevive e procriar?  Procriar vá lá, mas, e queria eu lá sobreviver? Se ainda fosse uma borboleta...Não. Eu mal queria viver. Queria mais evoluir os sentidos. Tê-los soltos voando às alturas da imaginação, pois o que seria sem a imaginação? Pobre de mim. Modigliani, suas estranhas belíssimas figuras femininas, talvez mulheres, finíssimos fantasmas encarnados, sensualíssimas, endemoniadas...ah! aquilo sim era um pintor. Morrer pela pintura, tuberculoso, intoxicado. Beleza do sofrimento. Eu tinha que morrer ali. Arre! Aquilo me revolvia as entranhas, era eu aquilo, imaginem, e foi assim que me apaixonei de vez e perdidamente pela pintura. Digo de vez porque houve uma primeira vez, quando me perdi, ao ver uma pintura de Tintoretto numa figurinha da Bala Ruth, que avidamente colecionava, como disse. Era uma figurinha difícil. Queria mas não sabia, daí nunca ter pensado em ser pintor. Um dia abri aquela bala e lá estava aquela maravilha, a bela figurinha rara. Dizia ser uma cena bíblica, mas duvido que fosse só isso, pois naquele momento a arte saltou de sua posição cavernosa para as faldas do Olimpo, onde eu bebi água clara e refresquei-me à sombra de uma oitizeira regatada. Foi minha mais agradável surpresa. Os livros, os livros sim me pareciam mais adequados, mas faltavam os leitores, eu sabia, e acreditava demais na razão, na minha cabeça de bosta, magnífica conjugação instantânea tão mal aproveitada no jogo da coisa nenhuma -, eu que queria o poder poderizado, coitado!  De modo que a pintura só me chegou quando as palavras já me estavam achatadas e clamando por silêncio. Ou calava e deixava a aorta desobstruída ou ia pro beleléu. E foi ali imagino que tenha nascido a minha pintura. Calada como uma poesia. Pois jamais pintei, acho que sempre fui poeta. Poeta de um novo homem, jardineiro da arte. Era o que me devia. E como me devia e achava ser demais para um pobre, um nada vil e apagado artista, uma insidiosa tuberculose me tomou o peito, matando-me ou quase. Por duas vezes morri e não morri. Mas em ambas feneci. A primeira foi aos quatro anos, no fim da II Grande Guerra, uma disenteria bacilar que por pouco não me desintegrou. A segunda foi morte de paixão, pura paixão, acho que estava muito intoxicado, a vida na cidade me sugara o sangue já faminto (eu comia nada, exceto uma sopa de batata com couve, num boteco português atrás do Amarelinho, tarde da noite, depois da Faculdade e de um dia de três trabalhos diferentes), e de modo que a tuberculose se instalou no meu entrado peito. Mas, assim como a peguei, de pronto ela se foi (como não soube que a contraíra, também não soube quando se foi) - e pude tomar uma sopinha de arroz azuki e uma sopa de missô, o que me levantou. Fiz a barba, durante o banho e depois desenhei e fiz uma pinturinha alegre e já pronta, e então a pintura me começou a curar. Rapidamente, aos poucos, sempre desenhando e pintando fui me curando. O texto me matava, a pintura me curava. Um dia julguei não estar mais debilitado e comprei uma trincha de pintor de parede na loja de ferragem do arraial de Mirantão, Minas Gerais, onde vivia no eremitério paradisíaco do meu inferno de artista-eremita, ...passei na venda e pedi uns papeis de embrulho e já no caminho de volta a casa, no lugar denominado Corpo Seco, comecei a pintar. Já não ouvia os ecos rudes da guerra, já não ouvia barulho de Deus nenhum, via sentido na beleza da natureza, tolerava, fingia não ver seus desvios, na verdade nem via, suas limitações, erros, ao ponto de admirá-la como um ente autônomo, por sua paz implícita e seu desejo expresso de saúde... enfim: imaginava-as uma só, imagine! Arte e natureza a um só tempo. Devia estar louco, ou melhor, encantado por miríades mirantenses, pelos fósforos dos vaga-vagalumes aos milhões, dançando sincronizados, uma só mente, a competir com a noite estrelada, pelas irisdicência das cores nos insetos, nas folhas, troncos, nas águas do Rio da Prata, cores! Bolas! Cores que nem existiam. Era como crer na morte e não na ressurreição. Havia vantagem nisso?  Ainda que morto-vivo, eu sobrevivera à guerra mundial e às bactérias da miséria e da ignorância locais. Agora sim, redivivo, eu podia pintar. Pintar as pipas, como o garoto do longínquo Encantado, ter o dia todo ao sol passado, ser a sociabilidade independente, pelas pipas, pelos balões, ser aquelas cores! Sempre fui aquelas cores. Que combinações! Roxo e Amarelo. Vermelho e Branco. Verde e Rosa. Preto e Branco. Nada mais lindo. Lembro-me com um gosto na boca de duas pipas que tive, uma amarela e roxa, a outra branca e vermelha. Velhas lições. Tudo que aprendi foi ali, fazendo e soltando pipa, dando linha à imaginação, soltando balões. Fui cubista nos balões, pop nas pipas, expressionista nos piões, impressionista nas bolas de gude, araripista foguista, incendiário, arqueiro maldoso e xerife de espingarda de ar comprimido, fui, sempre fui artista. Um abacate nascido assim, com caroço e tudo. Sempre acreditei que em verdade morrera eu, e não o meu irmão, que havia morrido por mim. Revivia e, no entanto, alguma coisa morria ali. Mas, fujamos da morte, esta inesperada história. Machado de Assis não gostava dos escritores que contavam tudo. Eu nunca contei nada. Nem mesmo meus personagens eram gentes, nem graúda nem miúda, minhas histórias mudavam de assunto, aliás como a vida, onde o inesperado tantas vezes é melhor e assim eu não era um escritor à maneira do Século XX, nem do XXI. Apenas a beleza de uma dor tuberculosa, isto sim eu contei. Sem rodeios, para os que souberam ler, contei como o homem seria melhor se fosse assim e não assado. Contei, ou melhor, cantei a beleza embelezada e subjetiva. Revelei. Intui que a beleza estava no começo das coisas, algo que Darwin disse ou insinuou, ou deveria ter dito ou insinuado. Como saber? Sei que sempre fomos estetas. Ele e eu. Eu mesmo já usava um brinco quando ainda era um cro-magnon. Lembro-me vivamente do espanto do ignaro neederlando ao ver-me em colores, o rosto e os lábios pintados. Que bicho! Trazia umas coisas perigosas e bonitas às mãos. Um bicho estético -, sempre fui, sou e sempre o serei mais.  Aliás, eis a minha salvação. Evoluir a evolução, refazer a natureza, de cabo a rabo, pintando. Sim. Tudo que temos que fazer é pintar. Pintar como pintou o primeiro pintor, quando a arte ainda nascia, com aquele pintor que fui (se é que o podíamos chamar assim), maravilhoso. Finda a guerra, fui feliz sem saber naqueles tempos de guerra, quando, como Promeu, eu quis morrer de vez. Ou melhor, pus em dúvida se seria melhor viver ou morrer. Dias inesquecíveis. Nascer no Brasil, morrer na Grécia. Ninguém conhecia a Grécia melhor que eu. Meu avô adotado e imaginado, Insibulus Trasibulus Marcoisos era tudo que um neto como eu, abandonado e sonhador, podia querer. Um avozâo. Grego de Corintho, da terra de mulheres azeitadas que se podiam possuir com dinheiro, não da terra, da rocha que eles escavaram na pedra para cortar o profundo canal. Em cima cultivavam videiras e olivais e no canal tinham tudo de um mar importante, seus portos, viajantes, comerciantes... todo o mundo passava por lá. Linda rocha, que ele possuía na grande mão vivamente marcada -, um homem do mar, notável, como disse em Maria na Terra de Meus Olhos (1975), no poema Sonho de Mármore em Grego Amado. Aí vai: 
Flores para Insibulus Trasibulus Marcoisos, detalhe
Veio do grego em frágua aventura concebido,
Gordo grego aventureiro que conversava
Poesia com o madeiro de seu barco, barco lançado em brumos mares de Corinto, sopitados mares de lestos
Olivais, azeitada
Azeitona
Negra de Corinto, que nediava sabores e atava o grego
À terra, lacrimosa terra flébil terra para sempre curtida no azeite enegrecido,
Engrandecido barril que pelos mares trazia atado, como
Se esgasse da vida
O tédio
Das travessias,
Brumados amores numa paixão de envergada e máscula aventura
de marinheiro, grego marinheiro enraizado no blendado solo de Corinto,
rocha dura amarronzada
rocha de Corinto, domesticado Corinto
de onde sobranceiro viu
pela primeira vez
o mar verde em cristalúcido poema de convite, aceitado
convite lançado
de corpo nu ao vento fogoso e morno que enlaçava
o madeiro envernizado e envernizado fazia
o corpo escalenado,
como a vontade que tinha, o impulso irreprimível de
provar
seu elemento maior,
entranhar-se-lhe
em gostos
como a negra pele dos olivais que descascava com os lábios engrossados pelo sol apojador, que também dizia das aventuras nas terras do norte,
e do sul,
e desta
onde aportou mais forte que sua helena razão, tão forte quanto o negro que o atraía e que atraía
pela boca,
boca de negro marinheiro em grande náutica lançado,
indo e vindo
em borroados achados, como cão
em fílingue natural, enfunando a nuca, reta nuca em nariz reto, desescalenado nariz enfunado
pelos ventos
dos trópicos mornos, beijando-lhe os caixilhos do rosto e acenando-lhe
com glórias em batalhas
de luxo e riqueza, emigrante riqueza cobiçada, em dote
derramada
sobre nós, como larvas
de pecado, pecado degustado em azeitonas negras
de Corinto,
em jornais
relidos e relidos em garantujos misteriosos,
marujos,
em capricho desenhados
nas formas esgarradas que traziam notícias da helena amada, desprezada helena amada, jamais reencontrada senão nas formas dos escaninhos do sonho, como pássaros pousados em olivais quietos de Corinto, como pássaros quietos que à boca trazia, azeitados, anegrados
em língua negra em negros dentes
expremendo
o sumo enrijecedor,
lembrador,
como o trincado enorme de seu corpo
movido lerdo,
calculado em preguiça, preguiça das longas travessias e
esperas,
em mares de veias rútilas, em verdes cristalúcidos mares navegando
em sonhos
pelas veias
que estancavam deliberadas
na razão, e
era o jeito armado que tinha, a exibição da liberta origem,
à maneira de fundador de vilas, povos, gentes
descendentes e,
amores nos cais dos portos que construía
com a rocha
que polia amando, e
amando ia,
pedra após pedra, sem encontro definitivo senão de prazer em prazer logo disperso,
fugaz prazer em fugas assumidas, sem mortes
necessárias,
em amor pensado nos pensados amores, resfolegado amor em baforada de fumo aspiralado, em compassados e demorados tragos
de um fumigador de delíquios em tabaco armados,
em saudade dorida e
curtida
pela terra que lhe vinha forte, queimando-lhe o peito, azeitando-lhe
os olhos
flébeis,
flébil lágrima tão amada nos cantos contorcidos das aventuras vividas
palmo a palmo
nas terras que descobriu
e encobriu
com a maciez tão pessoal de suas mãos
em calos cultivadas, no suor derramado nos palmos
de uma contagem
interminável,
medindo os homens,
palmeando-lhes com sua naturalíssima moral,
separando-o
pelos olhos,
cor da alma,
pelo jeito com que arrematavam suas posses,
pelo ar que queriam
respirar
e suspirar,
pela liberdade que podiam incutir nas gentes
compulsadas
em opressão odiadas e
transitoriamente frágeis no gosto do mando desregrado,
e sua anarquia anterior,
balançava
em bandeiras de cores claras, sem ostentação,
sem ódios cultivados
senão do ódio,
convictamente manso, em ato de pastor de mares a cordilhar náufragos
pescados
em radical
e solene
gesto assumido.
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