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Araripismo, por Nilo Lima

ARARIPISMO: TEORIA POÉTICA DA PINTURA DE OSCAR ARARIPE

 

 

 

Nilo da Silva Lima

Cadeira 40 – Patrono Oranice Franco

 

 

 

 

As cores, as tintas: umas não existem, as outras não valem nada. O que existe é a arte e a arte faz a vida.

 

                                                                (Oscar Araripe)

 

 

 

            Começo minha leitura da teoria acerca da pintura de Oscar Araripe (araripismo, assim mesmo por ele definida a sua pintura) por dois conceitos.

 

            Primeiro – por araripismo, aqui, quer-se entender o próprio esforço teórico do olhar de Oscar Araripe sobre sua pintura (pode-se dizer seja uma espécie de meta-pintura ou meta-araripismo, ou até autocrítica). Ou seja, trata-se do jeito como o pintor se concebe como homem inserido na história deste País e do mundo em que vive e em que exerce a sua cidadania. E como homem das artes, cultura e da literatura. A sua concepção de arte e, em especial, da pintura – as cores, as tintas, os objetos que figuram na sua pintura, a emoção que a arte provoca, a que conduz. A função social da arte – para que serve, se serve. O que se faz com a arte. As relações entre arte, vida e cidadania.

 

             A primeira vez que ouvi essa expressão penso ter sido foi em 2010, numa reunião da Academia de Letras de São João del-Rei, por ocasião do agradecimento de Oscar Araripe quando de sua posse como membro daquela casa, em que apresentou alguns capítulos de suas memória de pintor que escreve – Minha vida de pintor, um texto integralmente poético que me fez pensar na possibilidade de um pensamento poético sobre a pintura.

 

Então, Oscar Araripe fez uma espécie de introdução à leitura dos capítulos, chamando a sua pintura, o seu modo de pintar e a sua concepção – poderíamos dizer teoria – de sua pintura, todo esse conjunto de araripismo. Ou seja, após toda uma trajetória pelo mundo da pintura, tanto do ponto de vista da criação da arte quanto de sua reflexão crítica, Oscar Araripe defende o seu jeito de pintar como algo que vem muito mais dele mesmo, de sua trajetória histórica, de sua experiência como pintor do que das teorias da pintura que frequentara. É o que ele, portanto, chama de araripismo. Disse num tom de brincadeira, de uma simplicidade, como se aquilo, de fato, fosse assim absolutamente fácil, visível e simples mesmo, como os poetas, como todos os grandes artistas fazem. É que a simplicidade não é o primeiro grau das artes, mas o último. O grau maior. Só os grandes artistas são simples.

 

            Fiquei com essa ideia do araripismo por muito tempo me provocando. Aliás, deve mesmo ser verdade o que Bloom diz – que “a poesia me ensina a falar comigo mesmo” (BLOOM, 2013, p 24). Foi e ainda é o que me acontece em relação a essa minha tentativa de pensar poeticamente a pintura de Oscar Araripe. Falo continuadamente comigo mesmo. O que seria? No que se constitui? Qual a relação do araripismo com a pintura, a literatura e outras artes? E começo a fazer algumas anotações sobre o que imagino ser araripismo, a partir da pintura e do pensamento poético da pintura em Oscar Araripe. Recebo nessa mesma ocasião um e-mail da professora de Educação Artística, do Colégio de Urucânia, com alguns apontamentos sobre um conjunto de poemas meus que ela levara para seus alunos. E, como não escrevo de um único tempo essas ideias do araripismo, vou ler também Anatomia da influência: literatura como modo de vida, de Harold Bloom. E nada de teoria da pintura.

 

            Portanto, não fui, embora, certamente, devesse ter ido ou me valido dos mestres das artes, sobretudo, da pintura e dos que estudam a obra de Oscar Araripe para esta ousadia de dissertar sobre uma teoria de sua pintura, ele, um pintor de reconhecimento internacional, com obra exposta em diversas partes do mundo. No entanto, em nome desse reconhecimento, do respeito e da admiração tanto pelo Oscar Araripe, quanto pela sua arte, é que preferi, menos consciente de que o necessário dos riscos dessa opção pessoal, dessa paixão, suspender os próprios princípios e vertentes teóricas da pintura, para tratar, antes, aqui, de uma teoria quase ou meramente poética de sua pintura. Até porque penso que o pintor ainda não tinha feito, pelo menos publicamente, referência à sua obra e à sua concepção de pintura como araripismo. O que não significa abrir mão de um rigor que fundamenta essa opção, vamos dizer, apaixonadamente poética pela pintura de Oscar Araripe. No próprio conceito de araripismo, Oscar Araripe inclui junto à crítica de sua obra, às suas ideias teóricas de pintura, a sua paixão pela literatura, pela cultura, pela arte em geral. Portanto, trata-se de um conceito complexo.

 

Lembro-me aqui, do que diz Harold Bloom sobre o seu exercício como crítico literário (BLOOM, 2013, p.16), e que certamente inspira o meu exercício crítico, uma vez que me encontro lendo novamente os dois textos: a crítica literária de Bloom, em Anatomia da influência: literatura como modo de vida e a pintura de Oscar Araripe. Sem deixar de pensar também no eco da voz dos alunos de Educação Artística de Urucânia.

 

Bloom defende, então, a crítica, no seu caso específico, literária, como a prática de “pensar poeticamente a respeito do pensamento poético”. Não que eu vá aqui pensar a pintura do ponto de vista da pintura. Não. Até, porque acabo de confessar essas renúncias feitas. Porém, pensar também poeticamente sobre o pensamento da pintura. Ou pensar poeticamente a pintura. Pensar a pintura poeticamente. A partir de um conjunto de obras que por se tratar o artista de um pintor e poeta, ou de um poeta e pintor, envolve diretamente a pintura, todavia no que ela e nela sempre acena de poético.

 

Embora essa apropriação de Bloom seja um risco enorme para o que aqui me proponho, considerando que em Bloom se privilegia o rigor maior do pensamento poético que é exatamente pensar a poesia por meio do próprio pensamento poético. Enquanto que o meu pensar poeticamente a pintura, ao contrário, abre mão do que se pode chamar o rigor de um olhar estritamente de crítica da pintura, por um olhar, por uma leitura poética da pintura e de seu pensamento. Salva-se, pois, o pensar poético como fundamento de um pensamento, em Bloom sobre a poesia e aqui sobre a pintura. Não sei se seria prudente afirmar que a poesia esteja mais ligada ao coração – quem sabe o estado poético e não exatamente a poesia – do que uma teoria. Quero dizer, mais uma vez evocando o pensamento de Bloom, uma crítica que se quer visivelmente marcada pelo pessoal e pela paixão, sob os riscos, claro, de todas as ambivalências desse amor.

 

            O segundo conceito é a falta. O que pode ser que explique um pouco esta ousada teoria poética do araripismo. Por achar sempre na minha poesia uma falta, uma carência na sua relação com a pintura de Oscar Araripe. O que escrevo, ou no mínimo, muito do que escrevo, carece sempre da leveza, da graça, da consistência das borboletas, dos vagalumes, das flores, das cidades que hesitam e habitam a pintura de Oscar Araripe.

 

            Oscar Araripe, natural do Rio de Janeiro, onde nasceu a 19 de julho de 1941. Escritor e pintor brasileiro. Graduado em Direito (1968) pela Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro. Foi eleito para o Diretório do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (CACO), e militou na Ação Popular (AP). Perseguido e punido 3 vezes pela Ditadura Militar, foi anistiado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em dezembro de 2102. Bolsista na Universidade Pro-Deo, de Roma, Itália, frequentou seminários na Universidade de Harvard, USA. Jornalista cultural no Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Última Hora, escreveu o ensaio “China, o Pragmatismo Possível” (1974). Editou, com Augusto Rodrigues, o jornal Arte e Educação. Foi Editor-chefe dos jornais O Dia e A Notícia, do Rio de Janeiro. É membro fundador da INSEA, Sociedade Internacional de Educação Através da Arte. Autor da trilogia literária Maria, Marta e Eu. Sua obra foi analisada por Antônio Houaiss, Eduardo Portela, José Paulo Moreira da Fonseca, Márcio Souza e Vladimir Palmeira. Na Pintura, introduziu a vela náutica (dracon poliester) como suporte (1984), o film laser (como substituto do papel vegetal, onde também inovou) e desenvolveu técnicas próprias, como as transparências obtidas pelas pinturas por trás dos suportes, o uso dos markers e da aquarela acrílica. Essas inovações lhe permitiram, inclusive, expor permanentemente ao ar-livre grandes telas, com estruturas de ferro como moldura. Sua obra Extinção Nunca Mais, exposta durante a Conferência das Nações Unidas, Eco-92, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, atingiu público estimado de 2 milhões. Pintor paisagista, marinista, realista e subjetivo, possui vasta obra, em fase de catalogação pela Fundação que leva seu nome. Sua obra de pintura e desenho, inovadora, alegre e vivaz, mereceu a atenção crítica de Frederico de Moraes, Jean Boghici, Sérgio Rouanet, Luiz Galdino, Mário Margutti, Milton Ribeiro, Fernando Lemos, Alberto Beuttenmuller, Tertuliano dos Passos, Marylka Mendes, Wilson Lima, Gustavo Praça e Pierre Santos. A se destacar ainda sua obra Os Pilares, de 1200 imagens, e seus bicos-de-pena sobre Tiradentes, São João del-Rei, Ouro Preto, Bahia e Ceará, assim como seus eróticos, de grande pureza, e seus jarros de flores de grande frescor. Retratou três heróis brasileiros: Tiradentes, Bárbara de Alencar e Tristão Araripe, os dois últimos seus parentes. É citado na Bibliografia do Grande Dicionário Aurélio e verbete na Enciclopédia da Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho. Figura na Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais. Realizou quase uma centena de exposições, majoritariamente individuais, no Rio, em Minas, na Bahia, em Brasília, no Ceará e em São Paulo. Expôs nos Estados Unidos, França, Espanha, Eslovênia, Grécia, Cuba, México e Reino Unido. Possui galeria pessoal em Tiradentes desde 92, e é presidente da Fundação Oscar Araripe. Atualmente escreve Minha Vida de Pintor, cujos capítulos estão disponibilizados em seu site, onde apresenta também suas ideias sobre pintura, literatura e a vida em geral. Em 2008 recebeu o título de Cidadão Honorário de Tiradentes, e de São João del-Rei. Foi eleito para a Academia de Letras de São João del-Rei, do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei. É membro do Instituto Cultural Visconde de Rio Preto, de Valença. Ainda em 2008 expôs em Cataguases, na Galeria Tratos Culturais, e no México, no Centro Cultural de Texcoco e na Bienal de Chapingo. Em 2010 expôs Flores, na Galeria Manuel Bandeira, da Academia Brasileira de Letras, no Rio. Em 2011 expôs Flores, na Pinacoteca da Universidade Federal de Viçosa, onde realizou palestras sobre arte. Ainda em 2011, parte de sua obra floral e subjetiva, assim como uma cronologia inacabada, com imagens e textos, foi publicada pela Fundação Oscar Araripe, resultando num livro de arte bilíngue, de 358 páginas, 400 imagens, com textos e fragmentos críticos. O livro teve lançamentos em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Ouro Preto e São Paulo. Também em 2011 foi entrevistado por George Vidor e Guto Abranches no programa Globo News “Conta Corrente Casual”, sobre o tema “A Pintura na Economia Globalizada” Em maio de 2012 lança seu artbook em noite de autógrafos na Livraria da Vila, na Vila Madalena, em São Paulo e posteriormente na Livraria Cultura, em Brasília. Em julho de 2012 ganha Medalha de Ouro com sua tela As Flores abraçam o Mundo, na Olympic Fine Arts, exposta no Barbican Center e posteriormente no Forever Memorial das Olimpíadas de Londres. Em abril de 2013 expõe Flore, na Galerie Teodora, em Paris, com apresentação de Sérgio Paulo Rouanet e Pierre Santos.
E ainda expõe Tiradentes, o Animoso Alferes, no Museu Antônio Perdigão, em Conselheiro Lafaiete, em comemoração aos 267 anos do nascimento de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
[1]

 

            Vou contar uma história rápida. Alguns anos atrás, uma amiga, professora de arte (Educação Artística), de primeiro e segundo graus, no Colégio de Urucânia – cidadezinha no interior de Minas Gerais, ao leste da Zona da Mata, onde fui criado – reuniu uns poemas meus sobre a cidade e levou para a sala de aula. Distribuiu os poemas entre os alunos. E eles trabalharam com aquilo por umas duas aulas. Depois ela me narrou dois fatos que passei a ter por mim como duas críticas que se completam.

 

            Perguntado à classe pelos poemas, um dos alunos lhe teria dito: “até que gostar eu gostei, professora!” Porém, a professora pondo sentido na sua entonação, no repertório gestual para aquele “até que gostar eu gostei”, leu nele que alguma coisa nos poemas havia de que ele não tinha gostado. E tendo insistido com o aluno sobre o que nos poemas havia de que ele não tinha gostado, o aluno responde: “os poemas têm uma beleza impenetrável” – uma beleza impenetrável. É uma crítica rigorosa. Notem: “até que gostar eu gostei” e “uma beleza impenetrável”. A poesia, não pode, como nenhuma outra arte, ser impenetrável. Não teria sentido algum. Não basta o reconhecimento de uma beleza – de que pode ser que até gostar, gostemos – se ela é impenetrável. E um segundo aluno lhe teria cobrado o seguinte: “ah, professora, por que ele não põe uma pipa na poesia dele?” Ora, certamente, a ausência dessa pipa se constitui, no mínimo, numa metáfora da própria impenetrabilidade da beleza poética daqueles poemas, na leitura do primeiro aluno. E se pusesse a pipa na minha poesia? E se pudesse colocar a pipa na minha poesia? Por que não tinha colocado a pipa na minha poesia?

 

            Então é que pensei numa ligação, que se faria pela falta, pela carência, por esta beleza impenetrável, entre a pintura de Oscar Araripe e a minha poesia. Quase como se a minha poesia pudesse ser redimida de sua beleza impenetrável pela pintura de Oscar Araripe. E adejando pelas serras de Tiradentes, pelos labirintos das cidades de Minas, enfim, pudesse ser novamente apresentada em Urucânia, ali com alguma pipa, por menorzinha que fosse, sobrada, meio acanhada numa página. O menino não existe mais pelas salas de aula da professora, que ainda continuam repletas. O que não exime o poeta da recomposição dos céus de seus poemas.

 

            Ao contrário, no mundo imaginário criado e tornado real aos sentidos pelas telas, não faltam estas coisas que são a alma da arte, de toda arte – a vida. Por essas telas adejam borboletas, vagalumes, flores, pipas e até mesmo Iracema está lá diante da bica de Ipu, do despudor de sua sensualidade histórica, plástica e poética ou de uma nudez que recupera o que a pornografia despiu da nudez.

 

            A minha ousada leitura da teoria poética do araripismo se funda um pouco também no eco destas críticas vindas dos alunos de Urucânia sobre a minha poesia.

 

            Pintura e poesia, por vezes, mesmo podendo até se darem as mãos, em determinados momentos, em determinadas praças, têm projetos e objetivos distintos. Nem sempre os objetos se excluem, apesar das palavras e das tintas, do verbo e dos desenhos. Todavia não se completam. Nenhuma arte anseia completude. A arte é esta escrita ou este esboço (inquieto/incompleto silêncio colorido) pelas fendas, pelas lacunas que a vida propõe ao homem, como forma, como tentativa de conhecimento de si, do outro e do mundo. Não, ou menos como exercício de emenda destas fendas e lacunas, antes, apenas por sabê-las, lê-las assim mesmo – fendas e lacunas da vida e pela vida.

 

            O primeiro aspecto do araripismo é, portanto, a concepção de pintura para Oscar Araripe. “Araripismo – eis aí o meu estilo, resistente que sou ao fim do estilo, que é a verdadeira face da pessoa” (ARARIPE, Cap. XLIV). Mais do que uma teoria, no sentido restrito da palavra, esta concepção está visível, muito legível, diria, em toda pintura de Oscar Araripe. “A pintura é a mais leve das artes, a que mais fica” e, sobretudo – o que considero mais nítido na sua teoria – a “pintura é a arte em que o silêncio mais grita”. O que é? O que significa este grito de silêncio na pintura? “Toda boa arte é silenciosa”. Na pintura, as cores caladas gritam silêncio, ou seja, a pintura exige, impõe como primeiro gesto de aproximação o silêncio.

 

            Lembrem-se de quando nos aproximamos de uma tela. É como se despojássemos de todo ruído do mundo exterior, mesmo quando exposta em praça pública, para nos consumirmos naquele silêncio, daquele silêncio diante da tela. Para nos entregarmos de corpo, alma e história às nuanças das cores, ao itinerário, por vezes invisível, dos esboços, do traço, do corpo físico do desenho. Silêncio – este estado que nos possui por inteiro e se estende. Segundo Oscar Araripe, o silêncio fala direto ao coração que é onde toda arte começa. Ou, ainda, da necessidade de “esquecer para poder pintar, fechar os olhos para pintar” (ARARIPE, Cap. X). O despojamento que se exige diante de uma tela é como se pertencesse ou fizesse pertencimento do despejamento que o pintor exige de si: pinte-a de olhos fechados. Não veja, não traga visões, nem ruídos, nem vozes. Entregue-se apenas.

 

            Mesmo na poesia – considerando que seja arte feita na palavra, e a palavra não nasce para o silêncio, e que a atitude de aproximação de um poema quase sempre não reserva espaço de silêncio, mas de fala, de palavra sobre palavra de ruído – há no interior das vozes território propício ao silêncio, onde ele deve se impor, até mesmo em função da audição dessas vozes, sempre plurais, sempre múltiplas. Aliás, só há vozes porque há o silêncio em que elas se propagam.

 

Pinto na horizontal, num cavalete horizontal, de igual elegância e afastamento da tela; posso andar também em volta da pintura, sem recear pisá-la e nem me curvar como Pollock, mas, se quiser, posso pisá-la, como faço com as telas muito grandes. Só preciso mesmo é de um só pincel. Dois no máximo. Poucas tintas, muitas cores. Eis uma boa pintura, um bom fazer, eu criador de vida, para pintá-la em cores de saíra-das-sete-cores. Nada mais silencioso. As palavras podem vir depois da obra feita, nunca antes, raramente durante. Enfim, ir domando os acidentes e deles se superando. Sem erro nem retorno. Cada quadro, um quadro. Cada quadro um dia. Dois, três, no máximo. E eis-me sempre em busca do defeito inusitado -, e se eu pinto desta maneira é porque nunca a persegui. Roubei de tudo, de comida à terras, de terras a amores e por isso sou pintor. Não, eu não sou primitivo. Sou pessoal, talvez arcaico. Primitivo é o Leonardo da Vinci. (ARARIPE, Cap. IX)[2]

 

            Ainda com relação ao araripismo é fundamental que se diga que, mesmo em se tratando de um conjunto de técnicas, de métodos, de pensamento que caracteriza a pintura de Oscar Araripe, pode-se dizer, que esse conceito evoca muito a própria gênese do pintor no deslumbramento que o fez começar a pintar, provocado pela revelação das figurinhas das balas Ruth, que circularam nos anos 40, 50 e 60, com As três graças, de Rafael, que segundo Oscar Araripe (2011) “exibiam três mulheres nuinhas, duas de frente e uma de costas” (ARARIPE, 2011, p.6).

 

            Oscar Araripe, então toma a pintura por paixão pela pintura e aprende a pintar, assim a partir dessas coisas simples, a partir da vida, correndo pelos quintais do subúrbio do Encantado (RJ), onde fazia e soltava pipa, vendo o carnaval e os balões de São João e jogando bola-de-gude.

 

            Uma pintura que nasce, faz-se, permanece na simplicidade, na vida simples. Daí o entendimento de Oscar Araripe de que a grande novidade em pintura será sempre pintar de novo um jarro de flores. Ou seja:

 

A pintura é uma arte extremamente difícil que se deve fazer com muita facilidade. Sofra, se for o caso, na literatura, mas jamais  na pintura. Uma pintura deve fazer belos olhos, pois não os fazendo ela se volta contra o pintor e o enterra em um vale das lágrimas. Pinte fácil e sem errar, ou então escreva. Rompa seus pulmões, sangre, escreva até sangrar -, morra pelos outros, por si mesmo, ou então pinte (ARARIPE, Cap. XLVII).

 

O verdadeiro artista quer o mundo que pode criar. Fuja do eurocentrismo, do americanismo, seja araripista, ainda que a seu modo. Está tudo mofado e falido. Escrever é duvidar. Pintar é trocar dúvidas por certezas. Aqui pintar é lutar -, com a melhor arma, o pincel na mão da pessoa (ARARIPE, Cap. XLVII).

 

Segundo aspecto – a cor, as cores. Para Oscar Araripe “as cores, as tintas, umas não existem e as outras não valem nada. O que existe é a arte e a arte é que faz a vida” (ARARIPE, Cap. III). Um pintor que se professa incrédulo do que, a princípio, caracteriza a pintura – as cores e as tintas. Que descrença é essa? O que caracterizaria, de fato, a pintura: as cores, as tintas, ou a arte? Porque é a arte que faz as cores e as tintas se tornarem vida. Não é que o pintor negue as cores e negligencie o valor das tintas. Ou é exatamente isso? É que ele distingue a arte. É no artista, nesse ser humano histórico e no que ele cria (arte) a partir dessa experiência de sua historicidade, é o que está na alma dele que comunica às cores, às tintas a essencialidade que elas por si não têm. Porque não são a essencialidade daquilo que as torna visíveis, como criação artística, como expressão estética, com construção de sentido à vida.

 

            Fora da arte, as cores e as tinta não existem, não valem nada, ou tudo nesta mancha enorme e múltipla de cores e tintas, que dominam o mundo, tudo seria arte, e não é. Ou pode não ser. A existência e o valor estão na arte. E é ela que faz a vida. Cria, inventa a vida.

 

            Às vezes a poesia e a literatura se iludem também do valor isolado da palavra pela palavra, como por cores e tintas pelas cores e tintas. E a arte, que pode ter ficado naquela pipa que não entrou na poesia. E, de sua ausência, voa voos vãos pelos céus das páginas. Como aquela beleza impenetrável que estava sempre muito mais para um borrão inútil qualquer de tintas e cores, vazio de arte, como ecos sobre ecos em que as vozes não se distinguem.

 

            A cor é um elemento fundamental ao conceito do araripismo. A cor desejada, nascida, criada, inaugurada, inventada pela arte. A pintura de Oscar Araripe se caracteriza também pela especificidade de seu cromatismo poético. A multiplicidade de cores e tons – os que estão, de fato, na tela e os que os olhos e a imaginação fora da tela, diante da tela, vão inventando estar vendo e vendo – nascida da criatividade, do espírito poético que corrobora certa agressividade do pintor por instaurar, com a sua pintura, a partir de sua pintura, a liberdade, numa paixão pela vida, pela justiça, pela arte. Daí Manoel Noriega se referir a Oscar Araripe como “...gesto de niño que maneja um cometa”. Desassossegado pela transformação desse mundo, por fazê-lo melhor, até porque ele mesmo entende que “a arte é fazer, depois fazer e, por fim fazer” (ARARIPE, 2011, p. 161).

 

            Terceiro aspecto – a pintura como disfarce. No meio de um mundo, de uma vida que aborda, cerca, constrói, impõe toda uma infraestrutura do medo, Oscar Araripe concebe a pintura como disfarce deste medo. Não há outra opção na vida senão viver. Até mesmo o suicídio é um ato desesperado pela vida – acomete-se ao infinito, para usar aqui uma expressão da poeta Ana Cristina Cesar (CESAR, 2008, p.344-345 ) na ânsia extrema pela vida, à busca pelo fora do desespero experimentado.

 

            Portanto, a pintura é concebida pelo araripismo como disfarce de todos os medos: do poder, que oprime, que cala (há que se notar aqui a absoluta distinção entre o silêncio que a arte exige e o cale-se que o poder impõe). Disfarce da oficialização da arte em detrimento da liberdade que estará sempre na essência de toda arte, de todo processo criativo. Disfarce da opressão pela libertação, pelo silêncio das cores que desinventa na leveza a crueldade impingida ao homem. Disfarce pela criação, pela invenção do que poderia ter sido e que não pôde ser.

 

            Provavelmente o maior disfarce ou o que seja mais caro à pintura de Oscar Araripe seja o pensamento, como defende em depoimento na Academia Brasileira de Letras – “pintar é um disfarce para pensar” (ARARIPE, 2011, p.57). Para pensar a vida, para pensar o país, para pensar o mundo; para pensar a liberdade, para pensar o ser humano; para pensar a literatura, a cultura, a educação; enfim, para pensar a própria pintura e até para pensar o pensamento sobre a pintura.

 

            Assim, talvez a ausência da pipa, criando a impenetrabilidade na beleza ou da beleza impenetrável nos meus poemas, lida pelos alunos do Colégio em Urucânia, queira fundar o disfarce de um menino que não pôs, que não põe a pipa em toda sua poesia, que nem é tanta, e não apenas naquela mostra de poemas, para encenar essa impenetrabilidade necessária, talvez, ou certamente, imprescindível à sua vida longe, proibida, oprimida fora das trilhas dos meninos que encheram os céus azuis sobre o rio enxuto de verde de um colorido de que ele não tem dentro de seus olhos. E não pode para a palavra, muito menos para a pipa ausente. Essas cores, essas tintas para ele não existem. Porém, valem. A ausência delas impõe pelo rigor dos olhos dos meninos do Colégio de Urucânia o seu valor.

 

            Quarto aspecto – o belo, a beleza. Segundo Oscar Araripe a beleza é sempre da ordem da leveza, da alegria, do radiante. Na beleza, no entanto, nem sempre o belo é belo, posto que “o belo consiste na grande desordem do pequeno, assim como na pequena ordem da grandeza”. Neste sentido, a pintura se mostra como algo fácil tanto de fazer quanto de ser entendido. O objetivo de arte não é a invenção de grassas mentiras nem a descoberta de belas inverdades, e sim a própria arte. Simples assim. Arte objetiva a arte. Não que ela se feche, encerre-se em si mesma. Baste-se a sim mesma ou de si mesma. Pelo contrário, o artista há que revelar sempre o substancial, o essencial, o invisível mundo da vida, o ânimo que a tudo move, nutre e faz nascer. Por isso é que as cores, as tintas não existem, mas são inventadas pela arte. Aliás, “a arte pode tudo, deseja tudo, diz tudo” (ARARIPE, Cap. XVI).

 

            Daí o anseio de Oscar Araripe por uma arte “que seja janela para o mundo da arte, uma arte solidária, e pessoal. Eternamente humana. Que comece em uma fissão nuclear e acabe num suspiro de rosas e num recolher de asas de borboletas”. O itinerário do pintor e de sua obra pelo mundo tem essa função social – abrir janelas pelo mundo. Liberdade. A mesma liberdade que os poetas frequentados por Harold Bloom inspiram à sua crítica literária. Além de outras, como as janelas de solidariedade, de libertação pela arte, de paz, de cidadania, de promoção humana. As borboletas que, na natureza voam contra a impetrabilidade da pedra que compõe as serras, inspiram não apenas uma mimese da natureza pela arte, antes, faz a arte capaz de abrir novas janelas nas fronteiras resistentes à liberdade e à libertação do homem. Certamente que Oscar Araripe concebe a pintura, mas não apenas a pintura, toda arte como fundadora da liberdade. A liberdade que é um dos princípios máximo do homem.

 

            Quinto aspecto – o mundo. Por ele a relação entre a pintura de Oscar Araripe se liga mais visivelmente às carências do mundo, às nuanças do mundo, às cores do mundo de que os meus poemas permanecem carentes.

 

            Como pintor que escreve ou um poeta que pinta, Oscar Araripe ressalta em suas memórias – Minha vida de pintor – que:

 

Aprendi as linhas soltando pipas; calculei os espaços correndo atrás dos balões e pipas e fugindo, de modo que quando comecei na pintura foi como se abrisse os olhos num quarto que já conhecia. Daí uma pintura virtuosa que não acredita nas cores, na perspectiva, na composição do tema. Revolução é pintar um novo jarro de flores. Céus, borboletas e noites acesas a vagalumes.

 

            Ou ainda, como confessa em outro fragmento:  

 

Tudo que aprendi para a pintura aprendi com as pipas. Inclusive o bom combate. Todos os gestos elegantes (exceto os genéticos e os recentemente adquiridos), de apuro e leveza, todas as linhas riscáveis ou não, aprendi com as pipas. Inclusive uma sociologia, uma filosofia, uma moral, uma estética. Não conhecia o menino que soltava a pipa mas, por ela, eu sabia se ele era bom ou mau, ou ambos, se era artista ou não, se era honesto, astuto ou oportunista, e mesmo se tinha sorte, poder; se era um grande combatente, alguém que valesse o combate. Como as telas, pelas pipas podia-se conhecer o pintor. Eram pipas feitas por ele, e por ela voaria nos céus, tinham que ser bem feitas, talentosas, experimentais, apaixonadas e de apuro técnico. Um brinquedo de valer a pena; pois o que queria aquele menino, aquele pintor senão voar e ser invisível? Invisíveis meninos-homens da Água Santa; meninos prodigiosos, de pipas pequeninas, muito bem envidradas em linha 24, muito leves, cheias de arte e poder. 

 

            Revelação (revolução!) seria, de repente, uma pipa colorida nos céus nevoentos de fumaça de canaviais em chamas de meus poemas e aquele menino lá de trás, do dia da leitura, como se espantasse: “Ele pôs a pipa na poesia dele! Ele pôs a pipa na poesia!”.

 

            Sexto aspecto – o questionamento: qual é o poder da pintura, se ela, como vimos, disfarça, se ela se constitui num disfarce do poder?

 

            No seu livro de memória de pintor – Minha vida de pintor – cujos capítulos iniciais se encontram na página da Fundação que leva seu nome, Oscar Araripe comenta que:

 

Na verdade nasci atrasado e não pude ser jardineiro nem poeta, daí quis ser banqueiro. Ou melhor, queria nascer príncipe, não príncipe da Inglaterra, mas príncipe mesmo, nobre e rico. [..] Como vêem deu tudo errado. Sou pintor, e depois de ser ex-tudo, vendo e salvo a minha arte.

 

            A princípio isto não teria nada a ver com uma característica estética de sua pintura, de sua arte. No entanto, tudo tem a ver, porque o Oscar Araripe banqueiro que não se fez (não se faz?) entende que a arte é gratuita. E a relação que a arte mantém com o dinheiro é se esse dinheiro faz nascer flores. Ou seja, numa exegese desta passagem poética – o dinheiro e o poder só se justificam se promovem a arte, a vida e não o domínio, a possessão, a opressão do homem pelo homem.

 

            Ora, Oscar Araripe se torna pintor, por vezes se torna o jardineiro, porque nasce flores, jardins de sua alma de artista, de sua arte e enche, não apenas de cores e tintas as telas, como de calor, luz, alegria e sentimento humano todos os que somos tocados por ela. Todos os que nos despojamos diante dela dos nossos ruídos para ouvir o seu grito de silêncio. Torna-se também poeta. O poeta que escreve com pintor que nasce flores, borboletas, vagalumes que silenciam e falam e adejam como as palavras, ou através de palavras. E se faz poeta, no sentido mesmo do termo, porque é um poeta. E ainda que não tenha se tornado um banqueiro, não se afastaria tanto de um, quando a sua arte é hoje fonte de cultura, de promoção da educação libertadora, da valorização do ser humano, de preservação do patrimônio cultural deste País.

 

            Sétimo aspecto – a apropriação que a pintura de Oscar Araripe faz da inconsistência das teias de aranhas que tecem fios, alinhavando as janelas, os sobrados, os parapeitos dos casarões, em Ouro Preto e Tiradentes; as curvas e as linhas voluptuosas e sensuais de nossas montanhas; os becos das cidades que, de repente, de um labirinto menos iluminado, mostra a liberdade como um fio, uma página ou um traço nítido no corpo dessas Minas Gerais, a ordem interna de nossa cultura. Ou seja, a pintura de Oscar Araripe adota Minas Gerais como uma espécie de pano de fundo sobre o qual o pintor cria o seu mundo povoado de borboletas, vagalumes, casarões, peixes (nesse território desprovido de mar, porém, pródigo em rios, águas, imaginação e liberdade), flores, muitas flores. O vermelho do sangue derramado e se derramando pela liberdade não coagula numa mancha petrificada em Minas onde a pedra excede. E a pintura de Oscar Araripe inventa flores nascidas, um mundo de florais, sobre a poça mantida na memória de nossas cidades.

 

            A arte reescreve a história do mesmo tinto sangue, pela mesma liberdade, não se esvaziando da dor que lhe dissemina pelas montanhas, mas escrevendo nela o desejo de alívio que agora é capaz de nascer deste sangue doído à alegria de flores que enfeitam o país, o homem. E que nada fora em vão.

 

            Oitavo aspecto – o olhar. Não se trata apenas da questão de que a pintura seja uma arte que exige o olhar. Mas o exige para além dos olhos físicos tão-somente. Exige a ponto de fundar um olhar. Oscar Araripe diz que “o pintor é um fazedor de olhos”. Porque o pintor, como o poeta, inventa uma realidade. Na pintura, diz Oscar, até mesmo a realidade pode ser real. E inventa os olhos que olham a realidade inventada, tecida de cores, ligas, cristais, reflexos ou de palavras. Desconstrói, mostra, expõe o que talvez nem foi, nem é, mas pode ter sido, deveria ter sido. E o que penso ser – é – pelos olhos da arte.

 

            Assim, o passado, o país, em especial as Minas Gerais que Oscar Araripe nos oferece aos olhos, ao mesmo tempo em que nos mostram, criam em nós este olhar que, descido da tela, continua vindo liberto de uma cegueira impregnada aos vultos da visibilidade, do visível gratuito.

 

            Por que este olhar? Por que estes olhos fundados na arte? Como poeta primeiro e depois como pintor, Oscar Araripe escreve para voar, para ser invisível. A pintura ensina a voar, a ser invisível. Não no sentido de instaurar uma cegueira qualquer, mas no sentido daquele primeiro gesto que a pintura exige de quem se aproxima – o silêncio – a não-voz, o não-visível, o despojamento de determinados aspectos do mundo, para que a realidade criada pela arte seja visualizada. Assim é que a arte se mostra libertadora. Pintar as montanhas, não para ficar preso nelas, mas voar além delas, sobre elas, em volta delas, no núcleo delas. Também para ver e ouvir o que há, o que fica atrás delas. Cada vez que a arte nos põe a voar pelas montanhas, tornamo-nos mais capazes de criarmos ou de enxergarmos a multiplicidade de ângulos, não exclusivamente das montanhas, mas de toda vida, que nos cerca, que ainda não havia sido imaginada. Não imaginável, se não fosse pelos olhos da arte. Voos invisíveis, ou seja, sem a arrogância de cobri-las, de encerrá-las à cegueira da visibilidade empunhada aos nossos olhos.

 

            A arte é humilde. Ela apenas quer promover o acesso democrático à multiplicidade de seu olhar. Quer apenas dizer o olhar através do qual ela vê o mundo, os homens, a cidade, a vida. Olhai por ele se quiserdes!

 

            A arte é tolerante. Oscar Araripe afirma que teve que aprender a ser tolerante para suportar o mundo que, em função da arrogância que o caracteriza em muitos momentos, coloca-o contra a liberdade. Provavelmente, Oscar Araripe se refere ao longo período da ditadura militar em que o mundo, através de seus sistemas de governo, ameaçava a liberdade constantemente. Mas há que se ler também todo e qualquer poder, em todo e qualquer momento que se coloca contra a liberdade, que será sempre um dos princípios fundamentais dos direitos humanos.

 

            Por isso Oscar Araripe usa a imagem poética em que associa uma explosão nuclear e o suspiro de uma rosa, para descrever a função da arte no mundo – deve ser “uma janela aberta para o mundo, deve começar como fissão nuclear e acabar com um suspiro de rosa”. Impõe-se pela delicadeza, pela multiplicidade, pelo despojamento radical de toda arrogância. Porém, forte, precisa, visível, transformadora, libertadora.

 

            Certamente que a impenetrabilidade da beleza dos meus poemas, caídos nas mãos dos alunos de Urucânia carece do despojamento de uma arrogância que encheu os céus das páginas de tanta cor, de tanto objeto, de tanta palavra inútil – quase tudo excede nesses poemas, menos o despojamento – que ofusca a possibilidade ali de uma simples pipa solta, livre pelos céus das páginas, como que adejando sobre a cidade, sobre o mundo. Ou talvez nem tenha deixado, mesmo tivesse sobrado papel para que ela fosse feita, que fosse dada aos céus, aos olhos da cidade.

 

            Nono aspecto – a cor como parte do pintor. A cor em que se pode ler também a arte, não é algo exterior à vida, à história, aos sonhos, aos desejos do pintor. Antes, são todos elementos de si mesmo que se configuram em si, na vida, na sua história antes de figurarem na sua arte, na sua pintura. Compõe, assim, o seu interior, a sua história, pessoal e a de sua relação com o mundo, com o ser humano e com a arte. Por isso nascida dos quintais do Encantado (RJ), em cujos céus pairavam os matizes do cromatismo poético de sua pintura.

 

            Diz Oscar Araripe que “possuo a cor, trago-a gravada nos olhos, nos ombros, na cara, no peito, nas costas pelo sol dos muros ensolarados dos campos de pelada e das praias de Ipanema, Leblon, Arpoador” (ARARIPE, Cap. IX).

 

            Certamente neste sentido que as cores não existem para Oscar Araripe. Não existem como alguma coisa exterior ao próprio pintor, anterior à própria trajetória de construção de cada cor no âmbito da vida pessoal, histórica e artística do pintor. Não existe como um milagre ou qualquer magia que não implique senão no esforço continuado de constituição de sua pigmentação pela vida, pela história e pelo próprio pensamento da pintura, seja ele genuinamente crítico, nascido das teorias da pintura ou meramente poético, como ousamos aqui.

 

            E, finalmente, a questão da pintura que se concebe a si mesma um misto de mulher, deusa e musa que encanta tanto o pintor quanto o poeta:

 

E ela ali nua, pura arte, figurava pleno o espaço, enchendo-o de linhas e cores, fótons e cristais, luzes e cores invisíveis... e ali estava ela, a arte que não está na forma e nem mesmo nela mesma, e que a tudo faz surgir fartamente e por vezes era tal a sua criação que a natureza se recolhia superada, e a nova forma, a nova arte, a substituía (ARARIPE, Cap. XII).

 

              Capaz de recriar o homem histórico, de biografia pública, de reconhecimento mundial apenas no pintor/poeta, aquele que cria e se recria pela arte, simples:

 

Ser, significar é fazer a arte surgir. Vejo-me assim: num alto de uma escada primitiva apoiada numa grande rocha, onde pinto, num belo vale apertado. Deserto!? Para mim sempre foi um oásis. Um quadro, nem que seja por um segundo, terá que ter uma moldura. Que se derrubem as paredes, ao invés das molduras. Os olhos, os olhos mesmos já são a moldura. É moldura que a arte cessa, de modo que o artista, se quiser, deve pintar também a moldura (ARARIPE, Cap. XII).

 

A pintura é o silêncio. Um silêncio colorido, vá lá. Só ela pode ser mais silenciosa que a natureza e eu não conheço nada mais silencioso na natureza que o silêncio de um quadro. As palavras, quando antecedem à obra, podem ser poéticas, mas só a pintura muda o mundo (ARARIPE, Cap. XIII).

 

 

            Em que a relação entre pintura e poesia se faz na obra de Oscar Araripe que permite essa leitura, essa tentativa de pensar poética sua pintura? Se o próprio Oscar escreve:

 

Literatura? Prefiro a pintura [...] Bastaria pintar, ou melhor, ser pintor? Acho que sim. Certamente tinha que deixar as palavras, deixá-las como a uma mulher (ARARIPE, Cap. XVIII).

 

 

            É que na pintura de Oscar Araripe há um estado poético, não exatamente poesia, que a distingue. Penso que esse silêncio exigido e imposto pela pintura, de maneira peculiar na obra de Oscar cria um espaço de um contínuo, senão visível, diálogo entre a pintura e a literatura, mas também com pleno e democrático acesso a vozes de outras artes. O pintor prefere a literatura, porém, pinta poeticamente, não como se escrevesse, não como quem escreve, mas criando um estado poético na pintura, como exímio pintor que é. Creio que um dos princípios da Poética seja criação daquela sensação de liberdade que Bloom confessa ter experimentado desde os primeiros contatos com os poetas de seu amor, de sua paixão (BLOOM, 2013, p.16). É esse espírito de liberdade, talvez mais, ou no mínimo diferente, da experiência poética de Bloom que caracteriza o estado poético na pintura de Oscar Araripe.

 

 

Escrevi pra não esquecer e pintei para não lembrar. Hoje, esqueci a escritura, pinto só, e pintar é como escrever, só que sem barulho (ARARIPE, Cap. XX).

 

 

            Há ainda a questão de um humanismo que está na pintura de Oscar Araripe, que caracteriza sua arte, mas que ultrapassa a tela, ou no melhor estilo araripista, está disfarçado na pintura, porém, marca toda trajetória histórica de Oscar como cidadão do mundo.

 

 

Quando penso na beleza de um quadro, por exemplo, vejo algo de muito humano, uma tentativa de transcender aos horrores e pequenezas do mundo. Horrível arte essa  que desrespeita os insetos. Se quiser nos mostrar a metamorfose por que não pinta borboletas? Revolução em pintura é pintar uma nova borboleta (ARARIPE, Cap. XXXI).

 

 

Enfim, por isso mesmo insiste em:

 

Uma pintura alegre, capaz de atrair, convencer e a tudo vencer, suavemente, diferentemente, uma pintura-isca que roubasse íris alheias, as inteirasse de novos olhos, olhos do novo homem -, bela receita, mas como, como receitá-la? Impossível. Mas, mesmo assim devo receitá-la (ARARIPE, Cap. XXXVI).

 

 

A Arte parece criar a vida e esta as cores, apagando as rudes tintas e fazendo da vida cor. Tudo vida. Por certo que a arte popular é a arte dos pobres, embora a arte contemporânea, ainda que seja para os ricos, não é a arte dos ricos. Paradoxos paradoxais. Amar a si e ao próximo. Tortas linhas tão sábias. Fora da Arte não há salvação, ela que a tudo redime e dá direção. Caminhos impensáveis, maquinações naturais, tudo que move a Arte (ARARIPE, XLIII).

 

 

            Concluindo. Diz Alexei Bueno que Oscar Araripe é “um dos poucos artistas brasileiros a alcançar o difícil equilíbrio entre a exatidão e a leveza” (BUENO, apud ARARIPE, 2011, p.62).

            Dentre as características que distinguiriam a arte do século XXI, segundo Italo Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio (1990) exatidão e leveza se destacariam, exatamente, em função dessa exigência que Alexei Bueno encontra na obra de Oscar Araripe – o equilíbrio entre exatidão e leveza. Porque às vezes a exatidão pode pesar, pode significar determinado peso para a obra. Oscar Araripe consegue, em meio ao seu cromatismo poético, estabelecer, a flores, vagalumes, peixes, montanhas, cidades, esse fio por onde, numa multiplicidade de linhas, cores e tintas, equilibram-se estes princípios fundamentais de sua obra.

 

            Daí, portanto, a simplicidade, cada vez mais simples ainda, que ele atinge, o silêncio que impõe e a emoção, a paixão que sempre envolve. Tanto que chega ao limite de desejar, como pintor, “pintar o silêncio do grito” (ARARIPE, 2011, p. 51) e como poeta, “dizer nada quando escrevo” (ARARIPE, 2011, p. 51).

 

            Além de técnicas e métodos que o próprio pintor cria, inovando no âmbito de uma arte eivada de desconhecimentos técnicos, de repetições sem signo, de “escolismos” inúteis, a pintura de Oscar Araripe, como reitera Milton Ribeiro e Sérgio Paulo Rouanet, “é poesia”.

 

            Considerando que, aqui, propôs-se uma leitura poética da pintura de Oscar Araripe, encerramos dizendo, inspirado em Leo Christiano (apud ARARIPE, 2011, p 55) lendo a pintura de Oscar Araripe como “o milagre de revelar a tintas, o frescor e a beleza dos jardins”, que a pintura de Oscar Araripe é mesmo como um longo e saudável passeio por um imenso jardim coberto de flores, borboletas, vagalumes, de todas as cores, de todos os perfumes – muitas sem perfumes também, só flores – mas também um jardim de liberdade, de sonhos e dos desejos do ser humano. Desejos de paz, de justiça, de educação, de prazer e paixão pela vida.

 

 

ARARIPE, Oscar. Minha vida de pintor. Disponível em <www.oscarararipe.com.br>. Acessado em 31 out.2013.

 

______. Oscar Araripe. Tiradentes. Fundação Oscar Araripe, 2011.

 

BLOOM, Harold. Anatomia da influência: literatura como modo de vida. Tradução Renata Telles e Ivo Korytowski. Objetiva: Rio de Janeiro, 2013.

 

CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. Tradução Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

 

CESAR. Ana Cristina. Ana Cristina Cesar: antigos e soltos – poemas e prosa da pasta rosa (Org.) Viviane Bosi. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2008.

 

 

Para Oscar Araripe e Cidinha em gratidão à amizade, ao carinho, ao presente que nos enviaram. Mas, sobretudo, em reconhecimento à sua pintura, à sua arte, ao bem que fazem à alma de Minas Gerais. Oferecem: Eliza/Nilo.



[1] A referência aos dados biográficos de Oscar Araripe foi adaptada da biografia constante da página do pintor disponível no site da Fundação Oscar Araripe (www.oafundacao.org.br) – “Sobre Oscar Araripe”.

[2] As citações de Oscar Araripe neste texto se referem ao livro que ele está escrevendo Minha vida de pintor, cujos capítulos estão sendo disponibilizados no site www.oscarararipe.com.br, por não constar página numerada, optamos por destacá-las com a referência ao capítulo correspondente.

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